De novo, fiz algo pela primeira vez. Dancei flamenco na confraternização de uma empresa de TI que até ontem não conhecia o nome. O empresário desafiou seus funcionários: que formassem equipes de cinco pessoas e aprendessem uma coreografia de sapateado para apresentar na festa de fim de ano da firma. A equipe com o melhor sapateado ganharia dez mil reais. Qual não foi a surpresa dele ao saber que nenhum dos seus mais de 100 funcionários se inscreveu na competição.
Então ele mesmo decidiu se desafiar e procurou minha professora para aprender uma coreografia de sapateado flamenco. Comprou um bom sapato e fez oito aulas em dois meses aos 70 anos. Então chegou a noite da apresentação.
Para deixar o momento mais interessante, minha professora convidou a mim e a uma colega de turma para dançarmos a Bambera que ensaiamos o ano todo. Então, intensificamos os preparativos no último mês e lá fomos ao buffet em nosso figurino flamenco numa sexta à noite muito chuvosa.
Chegando lá, era tudo diferente: o tamanho do tablado, as pessoas desconhecidas, a luz azul, o barulho estranho do tacon ao bater na madeira.
O conhecido medo de errar, por outro lado, estava lá para assustar, mas mantivemos o “carão” e entregamos a última apresentação do ano da escola.
Em seguida, foi a vez do dono da festa mostrar seu talento. Me afastei do tablao e acompanhei o sapateado do trio com palmas. Desafio aceito, desafio entregue. Reconhecimento público.
Deixamos o “palco” para o sr. Cláudio e antes de agradecer pelo trabalho de todos ao longo do ano, ele fez questão de pontuar sobre a oportunidade perdida. “É fácil ganhar dez mil reais?”, perguntou. A plateia ficou meio perdida.
Depois de lançar a provocação, ele convocou cinco voluntários para subir no tablao e aprender apenas um dos quatro passos que ele realizou nos dois últimos meses. Ali ele trocou o papel de aluno pelo de professor.
Vários jovens correram para a pista de dança e arriscaram a sequência criada pela maestra Ana Paula: tacon, ponta, tacon, golpe, golpe. Foi uma gargalhada geral, com direito a pose no final.
A mensagem que o sr. Cláudio deixou com a experiência do sapateado é bem simples: a vida está sempre te apresentando oportunidades, o que você faz com elas?
Ele venceu a idade, a falta de ritmo e o medo de errar e arriscou o sapateado flamenco na frente de seus familiares e colaboradores. Já eu venci a timidez e me apresentei diante de um monte de desconhecidos. Em comum, temos os passos errados da coreografia, que ninguém percebeu que estavam errados porque não conheciam os certos, e a alegria de ter descoberto a capacidade de tentar com medo mesmo.
Mas essa não foi a única coisa que fiz pela primeira esse ano. Eu e a Carol estamos escrevendo um livro juntas. Nossa primeira incursão no mundo do ghostwriting e posso dizer que tem sido desafiador. Como foi desafiador produzir um vídeo em homenagem aos 20 anos da escola flamenca ao lado da afilhada, outra estreia dessa jornalista que acumula recomeços. Aliás, a Clarice também fez muitas coisas pela primeira vez esse ano: a primeira tatoo, cursar jornalismo na UEL, aulas de direção para conquistar a sonhada carteira de motorista de primeira, tornar-se infinita…
Essas primeiras vezes e tantas outras só mostram que a vida é mesmo uma sucessão de oportunidades e para cada uma delas há também uma renúncia. E eu, como tenho mais medo de dizer não do que sim, sigo aproveitando ao máximo o que a vida me dá. Com frio na barriga mesmo, um tanto de organização e mais um tantinho de paciência, conquistada aos poucos e na marra. E me cercando de gente boa que me ajuda a enfrentar os dias difíceis. Cada dia mais eu sei que é sobre a jornada e não sobre o resultado.
(Por Mariana Guerin)
